O Diário de um Mago | Paulo Coelho

Quando começamos a peregrinação, achei que havia realizado um dos maiores sonhos da minha juventude. Você era para mim o bruxo D. Juan e eu revivia a saga de Castañeda em busca do extraordinário.

Mas você resistiu bravamente a todas as minhas tentativas de transformá-lo em herói. Isso tornou muito difícil nosso relaciona- mento, até que entendi que o Extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns. Hoje em dia, esta compreensão é o que possuo de mais precioso na vida, o que me permite fazer qualquer coisa; e irá me acompanhar para sempre.

Por esta compreensão – que agora procuro dividir com outros –, este livro é dedicado a você, Petrus.

Paulo Coelho

Prefácio

A Fé, a Esperança (o Entusiasmo) deviam-nos levar à Caridade (o Amor). Assim é o Diário. Um livro que não lida com a inveja; lida, isso sim, com o desejo. O encontro de nós mesmos. É um grande sonho que se alcança após uma longa viagem. O caminho pode ser construído por todos, por qualquer um que assim o queira fazer. (…) Cada um de nós que tente fazer melhor.

A Chegada

Quando tornei a pegar no meu carro já estava um pouco mais calmo. Mesmo que não descobrisse a minha espada, a peregrinação pelo Caminho de Santiago ia acabar por fazer com que eu me descobrisse a mim mesmo.

Saint-Jean Pied-de Port

– O senhor deve ser mais um peregrino para Santiago – disse sem rodeios – Preciso anotar o seu nome no caderno dos que fazem o Caminho.(…)

A velha aproximou-se até ficar a dois palmos de distância, na minha frente. Então, numa espécie de transe, colocando as mãos espalmadas sobre a minha cabeça, disse:

– Que Apóstolo Santiago te acompanhe e te mostre a única coisa que precisas descobrir; que não andes nem devagar nem depressa demais, mas sempre de acordo com as Leis e as Necessidades do Caminho; que obedeças àquele que te vai guiar, mesmo quando te der uma ordem homicida, blasfema, ou insensata. Tu tens que jurar obediência total ao teu guia.

Eu jurei.

Saí da pequena cidadezinha atravessando as muralhas pelo Porte D’ Espagne. (…) Segui em silêncio, ouvindo ao longe a banda de íúsicae, subitamente, nas ruínas de um povoado perto de Saint Jean, fui tomado de uma imensa emoção e os meus olhos encheram-se de água: ali nas ruínas, pela primeira vez dei-me conta de que os meus pés estavam a pisar o Estranho Caminho de Santiago.

– O meu nome é Petrus (…)

– Petrus, acho que o cigano era o demónio.

– Sim, ele era o demónio – e quando confirmou isto, senti um misto de terror e alívio. – Mas não é o demónio que conheceste na Tradição. (…)

– Nós vamos encontrar outros pelo caminho – riu ele. – Irás perceber por ti. Mas, para teres uma ideia, procura lembrar-te de toda a tua conversa com o cigano.

Recordei as duas únicas frases que tinha trocado com ele. Ele tinha dito que me esperava, e tinha afirmado que procuraria a espada por mim. (…)

– Qual das duas está certa?

– Ambas estão certas. (…)

Para Petrus, o encontro tinha sido um presságio favorável, já que o demónio se tinha revelado favorável, já que o demónio se tinha revelado cedo demais. (…)

– Por isso o teu Mestre recusou-te a espada – disse Petrus – Porque não sabes a razão dele fazer os seus prodígios. Porque esqueceste que o caminho do conhecimento é um caminho aberto a todos os homens às pessoas comuns. Na nossa viagem, vou ensinar-te alguns exercícios e alguns rituais, que são conhecidos como AS PRATICAS DE RAM.

(…)

– O verdadeiro caminho da sabedoria pode ser identificado por três coisas apenas – disse Petrus. – Primeiro, ele tem que ter ÁGAPE, e disso vou falar-te mais tarde; segundo, ele tem que ter uma aplicação prática na vida, senão a sabedoria torna-se uma coisa inútil e apodrece como uma espada que nunca é utilizada.

– E, finalmente, ele tem que ser um caminho que possa ser trilhado por qualquer um. Como o caminho que trilhas agora, a Caminho de Santiago.

(…)

Petrus pediu que eu limpasse uma pequena área no chão e me ajoelhasse ali.

– A PRIMEIRA PRÁTICA DE RAM É RENASCER DE NOVO.

– Terás de executá-la durante sete dias seguidos, tentando experimentardes uma maneira diferente aquilo que foi o teu primeiro contacto com o mundo. Tu sabes o quanto difícil largar tudo e vir percorrer o Caminho de Santiago em busca de uma espada, mas esta dificuldade só existiu porque estavas preso ao passado. Já foste derrotado e tens medo de ser derrotado novamente; já conseguiste alguma coisa, e tens medo de tornar a perdê-la. Entretanto, alguma coisa mais forte que tudo isso prevaleceu: o desejo de encontrar a tua espada. E resolveste correr o risco.

O EXERCÍCIO DA SEMENTE

Ajoelha-te no chão. Depois senta-te nos calcanhares e dobra o corpo, de modo que a cabeça toque os joelhos. Estica os braços para trás. Estás numa posição fetal. Agora relaxa e esquece todas as tensões. Respira calma e profundamente. Aos poucos vais percebendo que és uma minúscula semente, cercada do conforto da terra. Tudo está quente e gostoso ao teu redor. Dorme um sono tranquilo. De repente, um dedo move-se. O rebento já não quer ser semente, ele quer nascer. Lentamente, começas a mover os braços e depois o teu corpo irá erguer-se, erguer-se até que estarás sentado nos teus calcanhares. Agora começas a levantar-te, e lentamente, lentamente, estarás erecto e de joelhos no chão. Durante todo este tempo imagina que és uma semente a transformar-se em rebento e a romper pouco a pouco a terra.

Chegou o momento de romper a terra por completo. Vai-te levantando lentamente, colocando um pé no chão, depois o outro, lutando contra o desequilíbrio como um rebento luta para encontrar o seu espaço. Ate ficares de pé. Imagina o campo em teu redor, o Sol, a água, o vento e os pássaros. És um rebento que começa a crescer. Levanta, devagar, os braços, em direção ao céu. Depois vai-te esticando cada vez mais, cada vez mais, como se quisesses agarrar o Sol imenso que brilha sobre ti e te dá forças, e te atrai. O teu corpo começa a ficar cada vez mais rígido, os teus músculos retesam-se todos, enquanto te sentes crescer, crescer, crescer, e tornares-te imenso. A tensão vai aumentando cada vez mais, até se tornar dolorosa, insuportável. Quando não aguentares mais, dá um grito e abre os olhos.

Repete este exercício sete dias seguidos, sempre à mesma hora.

Dentre as grandes sensações que experimentei na minha vida, não posso esquecer-me daquela primeira noite no Caminho de Santiago. Fazia frio, apesar de Verão, mas eu tinha ainda na boca o gosto do vinho que Petrus tinha trazido. Olhei para o céu e a Via Láctea estendia-se sobre mim, mostrando o imenso caminho que devíamos cruzar. Outrora, esta imensidão dar-me-ia uma grande angústia, um medo terrível de que não não seria capaz de conseguir , de que era pequeno demais para isso. Mas hoje eu era semente e tinha nascido de novo. Tinha descoberto que, apesar do conforto da terra e do sono que dormia, era muito mais bela a vida <<lá em cima >>. E eu podia nascer sempre, quantas vezes quisesse, até que os meus braços fossem suficientemente grandes para poder abraçar a terra de onde tinha vindo.

O CRIADOR E A CRIATURA

“Ao mesmo tempo, como todas as coisas são novas, enxergas apenas as belezas delas, e ficas mais feliz em estar vivo. Por isso a peregrinação religiosa sempre foi uma das maneiras objectivas de se conseguir chegar à iluminação. A palavra pecado vem de pecus, que significa pé defeituoso, pé incapaz de percorrer o caminho. A maneira de se corrigir o pecado é seguir em frente, adaptando-se às situações novas e recebendo em troca todos os milhares de bençãos que a vida dá com generosidade aos que lhas pedem”.

Na tarde do sétimo dia chegámos ao alto de um morro, depois de atravessarmos uma floresta de pinheiros. Ali, Carlos Magno tinha orado pela primeira vez (…) Depois, Petrus fez com que eu realizasse o Exercício da Semente pela última vez.

Ventava muito, e fazia frio. Argumentei que ainda era cedo – deviam ser, no máximo, três horas da tarde – mas ele respondeu-me que não discutisse fizesse exactamente o que ele mandava.

Ajoelhei-me no chão e comecei a realizar o exercício. Tudo correu normalmente até ao momento em que estendi os meus braços e comecei a imaginar o Sol. Quando cheguei a este ponto, com o Sol gigantesco a brilhar à minha frente, senti que estava a entrar num grande êxtase. As minhas memórias de homem começaram lentamente a apagar-se e já não estava a realizar o exercício, tinha-me transformado em árvore. Estava feliz e contente com isso. O Sol brilhava e girava em torno de si mesmo (…) Até que alguma coisa me atingiu e tudo ficou escuro, por uma fracção de segundo.

– Não esqueças os teus objectivos! – disse com raiva. – Não esqueças que ainda tens muito que aprender antes de encontrar a tua espada!

Sentei-me no chão, a tremer por causa do vento gelado.

– Isto acontece sempre? – perguntei.

– Quase sempre – disse ele. – Principalmente com pessoas como tu, que se fascinam pelos detalhes e esquecem o que procuram.

Não tínhamos andado mais de quinhentos metros quando, numa curva do caminho, o mundo de repente mudou. (…) Comecei a andar mais rápido, mas Petrus deteve-me.

– Acho que é o melhor momento de ensinar-te a SEGUNDA PRÁTICA DE RAM – disse, sentando-se no chão e indicando-me para fazer o mesmo.

Petrus, bem agasalhado na sua camisola, estava tranquilo, e olhava distraído a imensa planície.

– Que tal a travessia dos Pirinéus? – perguntou, ao fim de algum tempo.

– Muito boa – respondi sem querer prolongar a conversa.

– Deve ter sido muito boa mesmo, porque demorámos seis dias a fazer o que podia ter sido feito em apenas um.

Não acreditei no que ele dizia. Ele pegou no mapa e mostrou-me a distância: 17 km. Mesmo andando devagar por causa das subidas e descidas, aquele caminho podia ter sido feito em seis horas.

– Estás tão obcecado em chegar até à tua espada que esqueceste a coisa mais importante: é preciso caminhar até ela. Olhando fixamente para Santiago – que não podes ver daqui – não reparaste que passámos por determinados lugares quatro ou cinco vezes seguidas, mas em ângulos diferentes.

“Isto aconteceu, porque o teu acto de caminhar não existia. Existia apenas o teu desejo de chegar.” (…)


– Quando se viaja em direção a um objectivo – disse Petrus – é muito importante prestar atenção ao Caminho. O Caminho é que nos ensina sempre a melhor maneira de chegar, e enriquece-nos, enquanto o cruzamos.

<< E assim é, quando se tem um objectivo na vida. Ele pode ser melhor ou pior, dependendo do caminhou escolhemos para atingi-lo, e da maneira como cruzamos esse caminho. Por isso, a SEGUNDA PRÁCTICA DE RAM é tão importante: tirar daquilo que estamos acostumados a olhar todos os dias os segredos que, por causa da rotina, não conseguimos ver.

E Petrus ensinou-me

O EXERCÍCIO DA VELOCIDADE

Caminha durante vinte minutos, a metade da velocidadea que costumas normalmente andar. Presta atenção a todos os detalhes, pessoas e paisagens que estão à tua volta. A hora mais indicada para este exercício é após o almoço.

Repete o exercício durante sete dias.

– Não faças deste exercício uma tortura, porque ele não foi feito para isso – disse Petrus. – Procura tirar prazer de uma velocidade à qual não estás a costumado. Mudando a maneira de fazer as coisas rotineiras, permites que um novo homem cresça dentro de ti. Mas, enfim, tu és quem decide.

O mundo estava ali, a cercar-me, e eu percebi que muito poucas vezes lhe prestara atenção. (…)

– Onde estiver a teu tesouro, aí estará o teu coração.

Era uma frase da Biblia. Mas a voz continuou:

– E onde estiver o teu coração, aí estará o berço da Segunda Vinda de Cristo; como estas conchas, o peregrino na Rota Jacobeia é apenas casca. Rompendo-se a casca, que é a Vida, aparece a Vida, que é feita de Agape. (…)

– A Rota Jacobeia está marcada por pontos amarelos, pintados através de toda a Espanha – disse o Padre – Se em algum momento se perder, procure essas marcas – nas árvores, nas pedras, nos marcos de sinalização – e será capaz de encontrar um lugar seguro.

– Eu tenho um bom guia.

– Mas procure contar, principalmente, consigo mesmo. Para não ficar indo e voltando durante seis dias pelos Pirinéus.

A CRUELDADE

Petrus dizia sempre que o Caminho de Santiago é um caminho por onde qualquer pessoa pode passar, e só um Caminho deste tipo pode levar até Deus.

O caminho que estás a fazer é o Caminho do Poder, e só os exercícios de Poder te serão ensinados. A viagem, que antes era uma tortura porque querias apenas chegar, agora começa transformar-se num prazer, no prazer da busca e da aventura. Com isso estás a alimentaram coisa muito importante, que são os teus sonhos.

“O homem nunca pode parar de sonhar. O sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimenta do corpo. Muitas vezes, na nossa existência, vemos os nossos sonhos desfeitos e os nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar a sonhar, senão a nossa alma morre e ÁGAPE não penetra nela. Muito sangue já correu no campo diante dos teus olhos, e aí foram travadas algumas das batalhas mais cruéis da Reconquista. Quem estava com a razão, ou com a verdade, não tem importância: o importante é saber que ambos os lados estavam a travar o Bom Combate.”

” O Bom Combate é aquele que é travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heróicas, no tempodos cavaleiros andantes, isso era fácil. Havia muita terra para conquistar e muita coisa para fazer. Hoje em dia, porém, o mundo mudou muito, e o Bom Combate foi transferido dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.”

” O Bom Combate é aquele que é travado em nome dos nossos sonhos. Quando eles explodem em nós como todo o seu vigor – na juventude – nós temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de muito esforço, acabamos por aprender a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disto, voltamo-nos contra nós e combatemo-nos a nós mesmos, e passamos a ser o nosso pior inimigo. Dizemos que os nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto do nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos os nossos sonhos porque temos medo de travar o Bom Combate.”

(…) O primeiro sintoma de que estamos a matar os nossos sonhos é a falta de tempo (…) As pessoas mais ocupadas que conheci tinham sempre tempo para tudo. (…)

O segundo sintoma da morte dos nossos sonhos são as nossas certezas. Porque não queremos olhar a vida como uma grande aventura a ser vivida (…)

O terceiro sintoma da morte dos nossos sonhos a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar (…)

Quando renunciamos os nossos sonhos e encontramos a paz (…) temos um pequeno período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e a infestar todo o ambiente em que vivemos. Começamos a tornar-nos cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. (…) O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado da nossa cobardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livre das nossas certezas, das nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de Domingo.”

(…) E o mesmo acontece com toda a gente, todos os dias: vemos sempre o melhor caminho a seguir, mas só andamos pelo caminho a que estamos acostumados.

O EXERCÍCIO DA CRUELDADE

Todas as vezes que um pensamento que achas que te faz mal, te passar pela cabeça – ciúme, autoridade, sofrimentos de amor, inveja, ódio, etc. – procede da seguinte maneira:

Crava a unha do indicador na raiz da unha do polegar, até que a dor seja bem intensa. Concentra-te na dor: ela reflecte no campo fisico o mesmo sofrimento que estás a ter no campo espiritual. Afrouxa a pressão só quando o pensamento te sair da cabeça.

Repete quantas vezes for necessário, mesmo que seja uma atrás da outra, até que o pensamento te abandone. De cada vez, o pensamento voltará mais espaçadamente, e desaparecerá por completo, desde que não deixes de cravar a unha toda as vezes que ele voltar.

O MENSAGEIRO

“E aqui, todos os caminhos de Santiago se transformam num só.”