Se pesa … Larga!

Mares nunca antes navegados por mim

Iniciava, há quatro anos, uma audácia, chamada de aventura por uns, de loucura por outros. Por mares nunca antes navegados por mim. Não sabia bem o que ali estava a fazer.

Era o primeiro dia de nove que tenho pela frente.

Acordei tarde apesar de ter dormido horas e horas com as cortinas abertas e o sol a brilhar no céu e o oceano a entrar pelo quarto dentro inundando tudo de luz. Descansava como já não me lembrava de ser possível.

Senti-me verdadeiramente privilegiada!

Já passava da dez e já não ia a tempo de tomar o farto pequeno almoço que era servido no restaurante Miramar, mas não me importei. Tudo era novidade e eu queria calma. Queria sentir aquele momento com toda a sua plenitude pois era a primeira vez que o vivia. Estava verdadeiramente sozinha. Eu que sempre vivera rodeada de todos. Ali, dormir com o mar a embalar-me deu-me uma sensação de torpor difícil de largar. Espreitei o mar pela décima oitava vez (ou décima nona!!!) e decidi levantar-me.

Literalmente percebi o que era preguiçar e senti-me bem.

Levantei-me com hesitação. Podia se quisesse ficar ali. Não senti logo o balanço, mas ao abrir a porta da casa de banho, que era bem simpática, percebi que não se segurava sozinha. Tomei duche numa cabine pequena, mas não tão pequena quanto seria de esperar, onde a água jorrava com força e nunca era fria mesmo que a quisesse assim. Imaginava quanto litros de água carregaria aquele navio e, pelo sim, pelo não, economizei-a mais do que seria de esperar. Consciência da minha condição. Não sabia bem o que ali estava a fazer, mas sabia que muito me pesava.

Comecei os preparativos, e sim, tudo num navio são preparativos, mesmo quando não estamos preparados, assim, e como já me haviam dito que o sol em mar alto queima muito mais que numa praia ou piscina, devido ao reflexo massivo nas águas do oceano, a gosto, enchi-me de protetor solar dos pés à cabeça.

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Reparei, entretanto, que me haviam colocado debaixo da porta o diário de bordo, e assim foi todos os dias. Dei-lhe uma vista de olhos e percebi que iniciaríamos o retroceder das horas já na noite deste dia. Viríamos a atrasar quatro horas o que se revelou confuso para toda a viagem. Mas para já o dia estava a começar.

Depois, como era dia de reconhecimento a bordo vesti-me como se em Capri estivesse (onde aliás nunca estive, mas suponho que assim seja!) vestido azul longo, agasalho de algodão fino branco, imaculadamente branco, chapéu, óculos, um livro e câmara para os instantes e partilhas. Considerei-me pronta!

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Preparando-me sabia que o sol em mar alto queimava muito mais que numa praia ou piscina, devido ao reflexo massivo nas águas do oceano, e, como tanto gosto, enchi-me de protetor solar dos pés à cabeça. Coloquei um chapéu, óculos, biquini e fui até piscina.

Ou onde tudo acontecia! E aconteceu!

Subi ao deck 10, o deck exterior mesmo por cima do corredor da minha cabine, onde funcionava o restaurante Panorama. Aberto desde cedo até meio da tarde. Um self-service completo que atendia a todos os gostos e necessidades, desde um improvisado pequeno-almoço, como foi o meu caso, até um almoço tardio que variava entre comida italiana, chinesa e mediterrânea.

Sentia uma sensação de desequilíbrio, de tontura, que me tirava o apetite. Para contrariar a sensação de tontura fui petiscar algo, uns minis – croissantes, sumo de laranja, compotas, queijo e fiambre, doces, café. O suficiente para desenjoar.

O balanço do barco deixava-me nervosa. E isso é algo a que não estou habituada! Não sabia bem o que ali estava a fazer, mas sabia que muito me pesava e já não mais me servia.

Não me senti mal, mas percebi imediatamente que não controlava o meu equilíbrio que de si já é desequilibrado e isso deixava-me insegura. Mas penso que só mesmo a mim, porque ninguém notava soube-o depois.

Eram mares nunca antes navegados por mim.

Não me sentia mal, mas percebia que não controlova o meu equilíbrio que já de si era desequilibrado e isso deixava-me insegura. Caminhava com cautela e devagar.

Observava. Percebia que havia gente sozinha como eu. Mulheres e homens de todas as idades.Que havia famílias. Que havia grupos de jovens em grupos alternativos e menos jovens. Também casais maduros. Havia muita gente a bordo. Soube mais tarde cerca de seiscentas passageiros. A capacidade máxima do navio era de dois mil. Mais tripulação. Uns, como eu, que fazem a travessia pela primeira vez, e outros que já só chegam ao Brasil ou à Europa desta forma.

MARES NUNCA ANTES NAVEGADOS

Depois de um primeiro passeio, decidi apanhar sol. Sozinha, o sol queimava quente e alto. Deitada em espreguiçadeiras dispostas junto à popa, sentia-me verdadeiramente entregue a mim a mesma. Relaxava numa dimensão de entrega que não me era usual. Desfolhava um livro. Leio. Ler aliás é a minha preferência porque tenho tempo e ninguém, rigorosamente ninguém, me interrompe. Lia com voracidade como se o meu tempo fosse acabar. Mas não acabou.

Ali tinha todo o tempo do mundo para mim. São muitas novidades, um dia sabidas, até ali esquecidas. Não sabia bem o que ali estava a fazer, mas sabia que muito me pesava e já não mais me servia.

Agora por mares nunca antes navegados por mim.

Meu amor, era de noite

Trouxe comigo cinco romances, dois portugueses, dois brasileiros e um chileno. Comecei por um romance de Vasco Graça Moura É de noite, meu amor que me acompanharia por três longos dias. A leitura do enredo e o final prenunciador viria a revelar-se demasiado óbvio.

Na verdade, a própria vida é tão óbvia que compreenderia que assim estava destinado a ser. Foi também meu caderno de rascunho como todos os papéis que apanhei pela frente, na tentativa de reter uma ideia, um vislumbre.

Não sabia bem o que ali estava a fazer, mas sabia que muito me pesava e já não mais me servia. E larguei …